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sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Análise 5: O Fantástico Mundo de Bob



O desenho “O Fantástico Mundo de Bobby” mostra o dia-a-dia de um garotinho de quatro anos que entende as coisas de modo literal e possui uma imaginação fértil. Logo no começo do episódio em questão (“Cai o Primeiro Dente de Bobby”) podemos ver um exemplo relacionado à semântica e pragmática. Howie diz ao Bobby: “Muito bem, Bobby, o programa já vai começar. Você já escovou os dentes e o cabelo?” ao passo de que o menino responde “Ai, eu não quero colocar pasta de dente no meu cabelo!”.

Podemos observar que, por Bob ser uma criança na fase em que tudo é levado para o sentido literal, certas construções frasais o levam a entender mal o que foi dito, pois ele não possui o entendimento de contexto e de situação. Dessa forma, o modo como Howie fez a pergunta (“Você já escovou os dentes e o cabelo?”) faz com que Bobby interprete de forma errônea; Howie não teve intenção de dizer a Bobby para passar pasta de dente em seu cabelo e um interlocutor com outros conhecimentos de mundo entenderia isso. Além disso, a frase poderia ter sido construída de forma mais explícita para o entendimento do garoto, por exemplo “Você já escovou os dentes e penteou o cabelo?”.

Em outra situação (8:24min), Bobby está na sala de espera do dentista com os irmãos e o seu tio Ted, que tenta chamar a atenção de uma moça sentada ao seu lado, elogiando seus dentes. Então ele fala da experiência desagradável que ir ao dentista pode ser e se sucede o seguinte diálogo:

Moça: “Oh, eu não vou sentir nada, vou usar bastante anestesia”
Ted: “Oh, bem, pessoalmente, o dentista sempre me dá mais gás
Bobby: “Tio Ted, você disse que feijão sempre te dá mais gás!”

Podemos observar que há um conflito de ideias, pois Bobby entende “gás” com um significado diferente do que o seu tio utilizou; este usou “gás” referindo-se ao gás anestésico do dentista, enquanto aquele entendeu como flatulência. Podemos dizer que “gás” produz um efeito polissêmico.

Já na sala do dentista, este mostra a Bob (11:50min) uma placa na parede que diz que ele é um dentista. Pouco depois (12:27min) o Dr. Stoop diz “Agora eu vou raspar um pouco da placa que se formou nos seus dentes” e Bobby imagina o dentista tirando de seus dentes a mesma placa que lhe foi mostrada anteriormente. Nesse exemplo, vemos duas palavras homônimas (homófonas homógrafas) que causam uma confusão para Bobby, pois provavelmente o menino não conhecia “placa” no sentido de “película pegajosa e incolor, constituída de bactérias e açúcares que se forma sobre os dentes” (retirado de www.colgate.com.br). Desse modo, ele relaciona à placa da parede, apresentada pouco antes.

Logo em seguida, o Dr. Stoop entrega um copo de água ao garoto e pede que ele enxágue a boca. Então ele diz “Agora cuspa” e Bobby cospe no rosto do dentista, ao que se segue o seguinte diálogo:

Dr. Stoop: “Na bacia, por favor.”
Bobby: “Desculpe”
Dr. Stoop: “Não fui explícito nas minhas instruções, é assim que os acidentes acontecem”
Bobby: “Tá legal, da próxima vez seja mais explícito”

Nessa cena, há um ruído de comunicação (o que de certa forma é dito pelo dentista quando ele afirma que não foi explícito e que é dessa forma que acontecem acidentes) pelo fato de Bobby não compreender que na ordem do dentista estava implícito que o garoto deveria cuspir na bacia. Ou seja, esta informação ficou subentendida. Diz-se que a informação estava implícita, pois não havia um termo na oração que remetesse à bacia, nem de forma direta (“Cuspa na bacia”) ou de forma indireta que criasse um pressuposto. Como Bobby não possui um bom entendimento com relação a pressupostos e subentendidos, ele não consegue compreender certas afirmações.

Toda esta questão e o fato de como Bobby necessitar de informações precisas fica evidente no restante do diálogo, no qual o doutor afirma que não foi explícito e Bobby pede que da próxima vez ele o seja.

O desenho segue com outras situações em que o garotinho entende de forma literal o que lhe é dito, como o fato de o dentista mandar-lhe escovar os dentes após cada refeição e o menino fazer isso não só após as suas refeições, mas a de seus outros familiares também. Então, sua tia informa que “O dentista quis dizer para você escovar os dentes depois de cada refeição que você fizer” (deixando claros os subentendidos da ordem do dentista) e Bobby diz por fim “Mas como alguém vai saber que eu comi?”, mostrando que ele continua sem entender o que deve ser feito, e termina com “Ah, eu gostaria que o Dr. Stoop fosse mais explícito”.

Ao longo do episódio existem várias outras passagens que poderiam ser analisadas, pois o desenho é todo embasado nesse tipo de situação.

Análise 4: Crônica "Atitude Suspeita"

O texto “Atitude suspeita”, de Luis Fernando Veríssimo, aborda questões concernentes ao uso da semântica e principalmente da pragmática, como nos indicam os inúmeros exemplos encontrados no decorrer deste. Logo nas primeiras frases da crônica o autor já aponta a problemática do termo “atitude suspeita”: “É uma frase cheia de significados”, ele diz. Com isso, Veríssimo inicia sua discussão acerca de como o termo é utilizado em várias situações de prisão que nem sempre têm a concordância dos envolvidos de que a atitude em questão teria sido suspeita. Ou seja, o termo seria vago e a veracidade da acusação que ele faz será comprovada com o contexto e o entendimento de mundo dos interlocutores.

No primeiro parágrafo o autor utiliza o próprio título em uma frase de sentido ambíguo: “Sempre me intriga a notícia de que alguém foi preso em atitude suspeita”. Ressalta- se por meio deste caso analisado o que vem a ser a ideia de “atitude suspeita”. Semanticamente a frase tem um significado cujo teor não resta dúvida: há algo que não está claro. Em contrapartida, quando discutido o âmbito pragmático, observa-se uma situação subtendida gerada a partir de um pressuposto. No decorrer da leitura, consegue- se abranger o conteúdo implícito dentro da crônica onde os policiais notam a “atitude suspeita” do rapaz no ponto de ônibus, conotando, para aqueles, uma ameaça à coletividade. O presente enunciado está aludido na seguinte frase: “Diz que não estava fazendo nada e protestou contra a prisão”. De acordo com a linguagem em uso, dentro da pragmática, corrobora- se um ato ilocucionário, a ação é reflexiva pelo personagem (pag.08).

Discutindo o aspecto semântico no trecho a seguir: “É a segunda vez que o senhor se declara inocente, o que é muito suspeito. Se é mesmo inocente, por que insistir tanto que é?” Aqui se chega à conclusão também de significados opostos, chamados de antíteses, dentro do critério de figuras de linguagem; todavia, quando inserido pragmaticamente deixa em aberto análises subentendidas, pressupostas. O que depreende- se a inocência do rapaz ser inquestionável à acusação do delegado (... ”por que insistir tanto que é?”), ainda que este crie uma situação, forçando- o a se declarar culpado.

A ênfase com que é proferida a expressão “atitude suspeita” em todo o texto diversifica-se compreensões muito mais de cunho pragmático, pois dependem de fatores extralinguísticos, implícitos na maioria dos casos e não necessariamente de elementos linguísticos como vem a ser a semântica.

Nos parágrafos seguintes, o delegado faz com que o rapaz torne-se culpado, até porque na sequência este acaba “assumindo” a culpa pelo ato que não foi de fato cometido. Há um conflito de informações entre os interactantes. Todo o contexto se altera devido à atitude tomada pelo rapaz acusado que passa a indagar os agentes policiais. Essa confusão não é bem vista pelo delegado, passa a repudiar seus comandados, tomando assim uma “atitude suspeita”, soltando o cidadão e sendo alvo de críticas por parte de seus comandados.

Pelo elucidado neste contexto acima, chega-se a seguinte conclusão: É de salutar importância o uso da pragmática e da semântica, pois por mais que hajam significados implícitos e, algumas vezes explícitos, não se consegue identificar qual o uso real da situação em questão, pois estes têm implicaturas como questionamentos em aberto por parte do leitor.

Análise 3: Propaganda da Havaianas Wave




A propaganda acima se refere à marca brasileira das sandálias havaianas e, logo de inicio, pelo slogan apresentado nota-se que o publico alvo é o masculino. Analisando o slogan na área da semântica e pragmática: “Sandálias e mulheres, os homens preferem com curvas”.

Na oração podemos observar figuras de similaridade, pois vemos uma figura de alegoria (uma sequência de metáfora que aparentemente não possui relação nenhuma); Em “sandálias e mulheres os homens preferem com curvas” encontra-se uma figura de comparação (aproximação de dois termos que se assemelham), ou seja, compara-se curvas do corpo feminino às curvas do novo modelo da sandália masculina Havaina wave.

O vocábulo “curva” apresenta vários significados semânticos conforme o contexto aplicado, podendo assim afirmar que é uma palavra polissêmica (propriedade que uma mesma palavra tem de apresentar vários significados). "Curva" neste enunciado relaciona-se às curvas das mulheres e ao formado anatômico da sandália, além de relacionar-se com o nome "wave" da marca (onda em inglês). 

Explorando o contexto geral entre as imagens e as elocuções apresentadas observa-se o seguinte: as imagens acima de mulheres, sendo uma delas uma havaiana, que está no canto superior esquerdo, remete ao estado do Havaí, a terra do surf, o que casa com a palavra "wave" (nome do modelo da sandália) do inglês, estabelecendo uma relação entre as ondas do Havaí (que também se relacionam com as curvas), a "onda" de gíria utilizada por surfistas para "moda" e todos estes elementos conectando-se diretamente à marca Havaianas. Além disso, o jogo de cores quentes juntamente com todos estes elementos representam nitidamente a estação verão.

Análise 2: "Barcos nem pensa em ancorar"





Quem não conhece futebol e não está a par dos noticiários esportivos não conseguirá interpretar o título da notícia, a não ser que leia todo o texto e perceba que o “Barcos” a que a notícia se refere não é um grupo de embarcações navais, mas sim o nome de um jogador do Palmeiras que está fisicamente cansado, mas não pretende parar.

No enunciado, podemos observar que há um trocadilho com o nome “Barcos-jogador” e “barco-substantivo”. Ao ler apenas o enunciado um leitor que não tenha conhecimento de quem é Barcos pode ter a impressão de que a palavra “barcos” é um objeto.  Nesse caso, ocorre uma homonímia caracterizando um homônimo homófono e homográfico (iguais na escrita e na pronúncia). Podemos ver que há igualdade fonética e gráfica entre os dois elementos, porém, com significados completamente diferentes.

[Homônimos] são palavras que têm a mesma pronúncia, e às vezes a mesma grafia, mas sentido diferente. [...] Só o contexto é que determina a significação dos homônimos. O que mais nos impressiona nos homônimos é o aspecto fonético e gráfico. (Cegalla, pág 237)

Além disso, se levarmos em conta o sentido da palavra “barcos” como um objeto, tem-se uma figura de pensamento na oração, a prosopopéia (ou personificação). Esta consiste na atribuição de vida e sentimentos humanos à coisas inanimadas. No caso, o “barco” não “pensa” em ancorar; considerando que “barcos” (objeto) não pensam, há uma personificação.

Já analisando “Barcos” como uma pessoa (conforme o contexto descrito na notícia), pode-se dizer que o título foi redigido de forma conotativa (uso da palavra com significado diferente do original), pois o vocábulo ancorar, segundo o dicionário Houaiss, significa “lançar âncora ao mar”, mas no contexto da notícia nota-se que “ancorar” toma o sentido de “descansar”, pois fica entendido no contexto da notícia que refere-se ao fato de o treinador querer que seu jogador descanse. Temos também uma função de linguagem presente nesse título, que é a função referencial (o objetivo do emissor é traduzir a realidade visando à informação).

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Análise 1: "O tio de Felipe deixou-nos ontem."

Se a frase “O tio de Felipe deixou-nos ontem” estiver descontextualizada, podemos dizer que ela exprime um efeito polissêmico e é ambígua, pois dependendo do leitor ou ouvinte, esta frase poderá ser interpretada de várias maneiras. “Deixou-nos” tem a mesma forma tônica, mas sentidos diferentes. Por exemplo: pode ter deixado algo para alguém; ter deixado alguém em algum lugar; pode ter abandonado a família ou alguém; ou até mesmo ter falecido.

Podemos dizer que este exemplo contém proposição, pois segundo Fátima Oliveira (pag. 336) esta é o significado de uma frase declarativa que descreve uma determinada situação. De acordo com ela, do ponto de vista da Semântica, uma situação envolve tipicamente entidades, mencionadas através de expressões, que conservam entre si diferentes tipos de relações explicitadas pelo predicado.

Nesta frase há um verbo transitivo indireto que pede complemento para a compreensão fora do contexto e faz uso da denotação, ou seja, a descrição definidora “o tio de Felipe” para referir o sujeito.

Esta sentença é informativa e o seu significado possui tanto um sentido como uma referência. Também nesse exemplo podemos perceber um impasse na representação da frase.

Com relação a pressupostos e subentendidos, pressupõe-se que o tio de Felipe esteve conosco; além disso, dependendo da interpretação do leitor ou ouvinte, pode subentender-se que ele faleceu, ou “deixou algo para nós” ou “nos deixou em algum lugar”.

Seguindo Geoffrey Leech (1983), a partir do “princípio de delicadeza”, encontrado nas trocas conversacionais, podemos entender que neste exemplo, se produzido como morte do tio de Felipe, o locutor poderá fazer uso da delicadeza no ato locucionário, e por consequência implicar a utilização de eufemismo.

Este princípio é utilizado para minimizar os aspectos desagradáveis da ação realizada pelo locutor, considerado assim princípio de comportamento social, fazendo parte da competência comunicativa do falante, na qual ele tem a noção que determinados contextos situacionais exigem de sua parte um comportamento linguístico e social mais formal.

Podemos entender deste exemplo, por fim, o objeto indireto como dêitico, pois é um elemento que aponta a ação verbal do enunciado.

domingo, 28 de outubro de 2012

Casos a Serem Analisados

No presente trabalho, faremos a análise dos seguintes exemplos:


1) O tio de Felipe deixou-nos ontem.


2)


3)



4) Crônica "Atitude Suspeita", Luis Fernando Veríssimo


5) Episódio de "O Fantástico mundo de Bobby" (Cai o primeiro dente de Bobby)

Uma Breve Introdução

Semântica e Pragmática são duas correntes que inevitavelmente se conectam. A primeira cuida do estudo dos enunciados em si, os aspectos linguísticos que os formam e extraí um sentido mais literal do que é dito. Já a segunda é um ramo do uso linguístico, analisa a frase levando em conta o contexto de produção e os conhecimentos dos interlocutores.

Ao observar vários fatos cotidianos que ocorrem na comunicação, notamos que é impossível entender um enunciado sem um processo de análise tanto semântico quanto pragmático. Poderemos mostrar, com as análises a serem realizadas neste trabalho, que em certos casos, uma determinada forma de se comunicar pode ser levada "ao pé da letra", ou seja, de modo literal (uma visão semântica). Enquanto outros possuem vários pressupostos e subentendidos, tornando a comunicação ineficaz. 

"Ninguém poderá compreender a palavra 'queijo' se não tiver um conhecimento não-linguístico do queijo"
(Bertrand Russel)